Por Márcio Leite

João Antônio Ferreira Filho (1937-1996), conhecido simplesmente como João Antônio, é um nome que ecoa com força na literatura brasileira, mas que, surpreendentemente, permanece pouco conhecido em sua terra natal, o bairro de Presidente Altino.

Nascido em 27 de janeiro de 1937, filho de um português e uma brasileira, João Antônio cresceu em meio às dificuldades do canto proletário da região, onde a pobreza moldava a vida de famílias vindas de diversos cantos do Brasil e do mundo. Sua trajetória, marcada por uma infância humilde e uma carreira brilhante como escritor e jornalista, transformou as vivências da periferia em narrativas universais, que conquistaram prêmios e reconhecimento, mas ainda buscam eco entre os moradores de seu bairro de origem.

João Antônio na década de 1960
João Antônio na década de 1960
Foto: Acervo pessoal/UFSC

Raízes em Presidente Altino

A infância de João Antônio em Presidente Altino foi profundamente influenciada pelo ambiente operário. Na década de 1930, nosso bairro era um ponto de convergência para trabalhadores das fábricas locais, muitos vivendo em barracos improvisados, como descrito em seu livro “Abraçado ao Meu Rancor”:

“No Morro da Geada, depois da várzea de Presidente Altino, venta bravo nas noites e, nas madrugadas de muita friagem, no Morro costuma gear. (…) As mantas feias e ralas de flanela cinza rampeira, compradas barato na feira dos domingos do Jaguaré, não impedem a umidade que vara as paredes dos barracos feitos de caixotes vazios de sabão e bacalhau”.

Essa passagem reflete não apenas a dureza da vida no bairro, mas também o talento do escritor em capturar a essência da periferia com uma linguagem viva e poética. A referência ao Morro da Geada vem do bairro do Jaguaré, quando Presidente Altino ainda era um distrito de São Paulo.

Apesar de ter se mudado para o Rio de Janeiro na vida adulta, João Antônio nunca cortou os laços com nosso bairro. Ele retornava frequentemente para visitar familiares, como seu irmão Virgínio, que permaneceu no bairro até o fim da vida. Sua sobrinha, Érica Ferreira, recorda a presença constante do tio e a conexão com as histórias que ele contava, muitas vezes baseadas em memórias reais da família e do bairro. “Lembro que muitas coisas que li tinham realmente acontecido, porque eu via nos livros e perguntava para minha mãe e avó, como os lugares que a gente morou e coisas que eu já tinha ouvido em casa mesmo e que estavam nos livros”, revelou Érica. Sua sobrinha, Érica Ferreira, recorda a presença constante do tio e a conexão com as histórias que ele contava, muitas vezes baseadas em memórias reais da família e do bairro. “Lembro que muitas coisas que li tinham realmente acontecido, porque eu via nos livros e perguntava para minha mãe e avó, como os lugares que a gente morou e coisas que eu já tinha ouvido em casa mesmo e que estavam nos livros”, revelou Érica.

A obra e a cultura operária

A obra de João Antônio é um retrato fiel da vida nas periferias urbanas de sua época, com personagens que habitam botequins, sinucas e ruas dos bairros operários. Sua estreia literária, “Malagueta, Perus e Bacanaço” (1963), é um marco na literatura brasileira. O livro, composto por oito contos e uma novela, apresenta três amigos mergulhados no universo da malandragem, com cenários em bairros como Água Branca, Barra Funda e Pinheiros.

Capa do livro Malagueta, Perus e Bacanaço
Capa do livro “Malagueta, Perus e Bacanaço”
Foto: Amazon.com.br

A linguagem coloquial, repleta de gírias coletadas nas ruas, rompeu com os padrões literários tradicionais e trouxe uma autenticidade única, conquistando os prêmios Fábio Prado e Jabuti (nas categorias “Revelação” e “Melhor Livro de Contos”). A história por trás do livro é tão marcante quanto a obra em si. Após concluir o manuscrito, João Antônio perdeu todos os originais em um incêndio que destruiu sua casa em Presidente Altino. Com base apenas em memórias e alguns bilhetes guardados com amigos, ele reescreveu a obra ao longo de dois anos. Em 1977, o livro foi adaptado para o cinema no filme “O Jogo da Vida”, dirigido por Maurice Capovilla e estrelado por Lima Duarte.

João Antônio trouxe para a literatura figuras marginalizadas – malandros, engraxates, prostitutas, jogadores de sinuca – que raramente encontravam espaço nas narrativas da época. Sua escrita, influenciada por autores como Graciliano Ramos, Lima Barreto e Dostoiévski, misturava ficção e jornalismo, criando o que foi chamado de “conto-reportagem”. Um exemplo é “Um Dia no Cais” (1968), publicado na revista Realidade, considerado o primeiro do gênero no Brasil. Ele foi repórter do Jornal do Brasil e cronista em várias revistas, como Cláudia, Manchete e Globo Rural.

Legado e relevância

João Antônio na década de 1990
João Antônio na década de 1990
Foto: Cristina Bocayuva/Agência O Globo

A ligação de João Antônio com Presidente Altino vai além das memórias de infância. O bairro aparece em suas obras como um pano de fundo que humaniza os excluídos e celebra a cultura popular. Sua habilidade de capturar a oralidade e as gírias da periferia, registradas em cadernetas que hoje compõem o acervo do Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa (Cedap) da Unesp de Assis. Em 2018, ao iniciar a composição deste acervo, a própria universidade chegou a entrar em contato com a AMALTINO para saber mais sobre o escritor, mas na época, não tínhamos muitas informações sobre ele. Em 2023, a mesma Unesp organizou uma exposição comemorativa pelos 60 anos de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, reforçando sua importância para a literatura.

Com esse artigo na data de seu nascimento, a AMALTINO celebra a vida e a obra deste ilustre morador. Para a comunidade de Presidente Altino, resgatar a memória de João Antônio pode ser uma forma de celebrar a própria história do bairro. Ainda não temos placas, ruas ou monumentos no bairro que celebrem sua memória, exceto por uma travessa na Água Branca, zona oeste de São Paulo, que leva seu nome. Sua obra é um convite para que os moradores reconheçam a riqueza cultural de sua região, muitas vezes invisibilizada.

Fontes:

https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2018/06/joao-antonio-o-ilustre-desconhecido-de-presidente-altino/

https://jornalismoehistoria.sites.ufsc.br/2021/02/26/a-vida-e-obra-de-joao-antonio-em-podcast/

https://jornal.unesp.br/2023/06/10/em-memoria-da-obra-prima-de-joao-antonio-que-levou-a-cultura-da-periferia-as-rodas-literarias/

https://globorural.globo.com/Noticias/Cultura/noticia/2016/01/no-morro-da-geada.html

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