Por Márcio Leite

Foto da capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O bairro de Presidente Altino é conhecido por sua qualidade de vida e suas praças são pontos de referência disto. No entanto, o crescente desafio da presença de pessoas em vulnerabilidade social e deterioração da zeladoria de nossos espaços públicos exigem uma reflexão profunda e, acima de tudo, uma ação conjunta e coordenada. 

Não podemos cair na armadilha de tratar este assunto complexo com soluções simplistas. A questão é social, econômica, segurança e de saúde pública, exigindo o envolvimento de mais de um órgão público e a participação ativa de cada morador.

Migrações de locais e auxílios que não auxiliam

A presidente e vice-presidente da AMALTINO, Salpi Bedoyan e Flavia Almeida, também presidem o CONSEG Osasco Centro: um fórum de discussão onde assuntos de segurança e zeladoria da região são discutidos mensalmente e encaminhados às forças de segurança e órgãos municipais. E um dos assuntos mais apresentados são situações envolvendo as pessoas em vulnerabilidade social.

A Polícia Militar e Guarda Civil Municipal reportam nas reuniões que, ações pontuais de segurança no centro de Osasco geram um efeito colateral: a migração de pessoas em situação de rua para bairros próximos. Até mesmo a pulverização da Cracolândia no centro de São Paulo provoca uma migração para regiões próximas de estações de trem e terminais rodoviários nas cidades vizinhas.

Além disso, a dinâmica do auxílio, embora bem-intencionada, cria um ciclo vicioso. A oferta não coordenada de esmolas e alimentos (muitas vezes feita por ONGs e missões de igrejas de outros bairros ou cidades que não conhecem a realidade local) faz com que essas pessoas fiquem concentradas onde obtêm benefícios com o mínimo esforço. No centro de Osasco, por exemplo, muitas entregas são feitas próximas ao Mercado Municipal e da UPA Osasco Centro. Em Presidente Altino, a Praça Dicran Echrefian e o retorno da Av. Fuad Auada são os pontos onde há mais entregas.

Missão de igreja realizando distribuição de alimentos. Foto: Márcio Leite

Essa concentração é agravada pela facilidade de acesso a drogas em regiões adjacentes, como a rodoviária municipal e as comunidades do bairro do Jaguaré, fomentando a dependência, invasão de imóveis desocupados e a desordem, com brigas, agressões e obscenidades em nossas praças, deixando pais e responsáveis pelas crianças desconfortáveis em frequentar áreas públicas.

Em diversas ocasiões, membros da diretoria da AMALTINO e moradores do bairro através do grupo de WhatsApp relatam que em locais como a Praça Laurindo de Camargo, Praça Dicran Echrefian, Viaduto Guerino Spitaletti, Viaduto Único Gallafrio e Travessa Laudelina Carvalho Duarte, encontram embalagens de marmitas espalhadas com restos de comidas, talheres descartáveis e garrafas de bebidas alcoólicas, além do descarte irregular de lixo e forte cheiro de maconha e outras drogas ao caminharem no acesso da Estação Presidente Altino, Praça Armênia, Passagem Artur Marcolongo e Passarela Bruno Alves (atrás do SENAI (ligação Presidente Altino -Bonfim).

Praça próxima a Travessa Laudelina Carvalho Duarte. Foto: Grupo Programa Vizinhança Solidária

Deterioração dos bens públicos e privados

O custo de tudo isso é visível e atinge diretamente nosso patrimônio. O aumento da presença de pessoas sem moradia fixa está diretamente ligado à deterioração das praças. Assistimos ao vandalismo e à venda de equipamentos públicos em ferro-velho, como gradis, partes de brinquedos de playground, e até mesmo furtos de hidrômetros durante a madrugada, relatado pelos moradores através do grupos do Programa Vizinhança Solidária (PVS), tudo para manter o vício e permanecer nas ruas.

Lixo acumulado na Praça Dicran Echrefian. Foto: Márcio Leite

Recentemente (outubro/2025), na Praça Dicran Echrefian, antes mesmo do término da reforma protocolada pela AMALTINO em reunião com o prefeito Gerson Pessoa e em execução durante a operação “Prefeito no Bairro”, operários e moradores flagraram essas pessoas furtando peças do novo playground, escondendo elas entre as árvores do local para posterior retirada. Este incidente demonstra o desrespeito ao patrimônio público e a urgência de uma ação de segurança e social coordenada para proteger os investimentos realizados.

A situação tem um impacto humano ainda mais triste: nas recentes feiras que a AMALTINO tem organizado, muitos moradores reconhecem nesses grupos filhos de conhecidos ou amigos de infância, que ao se envolverem com o ciclo das ruas, acabam afastando-se de suas redes de apoio tradicionais: a própria família.

A solução é intersetorial e coletiva

É inegável que a solução deve envolver uma força multidisciplinar de vários órgãos, que a AMALTINO gostaria de deixar registrado em prol de ações colaborativas.

Atuação da Prefeitura de Osasco:

– É preciso humanizar a abordagem. A Secretaria de Assistência Social e a Secretaria do Trabalho poderiam trabalhar em conjunto para:

  1. Identificar e cadastrar as pessoas em situação de rua

  2. Promover ações para identificar aqueles que possam ser encaminhados para oportunidades de trabalho ou execução de serviços comunitários no próprio bairro

  3. Encaminhamento para cursos profissionalizantes na unidade do SENAI de Presidente Altino ou escolas conveniadas com a prefeitura

  4. Em última instância, para aqueles que forem constatados dependências químicas, encaminhamento para o Programa de Casas Terapêuticas, que possui uma unidade em nosso bairro.

Atuação das forças de segurança:

– Ações coordenadas da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal são vitais, não apenas para a repressão do vandalismo, mas para identificar aqueles com antecedentes criminais e garantir a segurança dos demais cidadãos.

Atuação da AMALTINO:

– Temos investido na realização de feiras e eventos culturais na Praça Dicran Echrefian com um objetivo estratégico: trazer os moradores de volta aos espaços públicos. Além de fortalecer a comunidade, naturalmente torna esses locais menos propícios para a permanência deles e os encorajam a procurarem outros locais onde possam ter acesso a serviços sociais de maneira coordenada.

Atuação de outros grupos:

– Ações dos Insanos Moto Clube, que junto com a ONG Médicos Pelo Mundo e outros representantes de classe, oferecem assistência na Praça Laurindo de Camargo regularmente, de forma organizada, centralizada, fazendo um assistencialismo que humaniza o processo (e não apenas “distribui por distribuir”).

– O trabalho de conscientização nas reuniões do CONSEG Osasco Centro reforça a necessidade de ações de doações sejam feitas próximas de albergues, para que, de alguma forma, essas pessoas possam ser assistidas.

Como você, morador pode ajudar, de forma eficiente:

– Evite a esmola e a doação não coordenada:

– O auxílio pontual e desorganizado, embora pareça caridade, mantém a pessoa na rua e no ciclo de dependência. Direcione sua ajuda para as instituições sociais do município que trabalham com reinserção social e capacitação profissional.

– Seja um zelador do bairro:

– Denuncie imediatamente o descarte irregular de lixo às autoridades competentes através do 156 da Prefeitura de Osasco.

– Fique atento em sua rua e registre os atos de vandalismo e furtos. Participe dos grupos de WhatsApp do Programa Vizinhança Solidária (PVS) organizados pela AMALTINO e, nas emergências, ligue na PM 190 ou GCM 153.

– Em caso de ocorrências policiais, sempre faça o Boletim de Ocorrência para que as Polícias Civil e Militar tenham as estatísticas corretas do que acontece em nosso bairro e argumentos para solicitar reforços.

– Ocupe as praças:

– Leve sua cadeira, combine um encontro com os amigos, leve seus filhos e netos para o parquinho. A vida comunitária é a nossa maior ferramenta de zeladoria e Presidente Altino ainda é um bairro com “cara de interior” que proporciona momentos como esse.

Nenhuma das ações acima será sustentável sem a nossa ajuda. A principal forma de combater a desordem e recuperar os espaços é através da reocupação das áreas públicas.

A questão das pessoas em vulnerabilidade social é de responsabilidade de toda a cidade, mas a zeladoria e a segurança do bairro dependem da nossa união e da nossa voz cobrando ações integradas. Vamos trabalhar juntos para garantir que nossas ruas sejam, novamente, o coração seguro do nosso bairro.

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